No domingo 27 de setembro, a seleção feminina conquistou a Copa América, em Cuiabá, o primeiro título das mulheres na nova gestão da CBB e sob o comando de Hortência na direção do feminino.
Há exatos oito (!) anos, escrevia meu primeiro texto nesse blog (Michael e Maria), no qual conclamava que a Rainha retornasse ao lar do basquete, logo após uma outra conquista de Copa América, dessa vez em São Luís do Maranhão.
Se estou ( ou estava?) certo, só o tempo dirá, mas devo confessar que a nova conquista, a reunião das campeãs mundiais de 1994 e a dedicação juvenil das veteranas Helen e Alessandra acabaram por derreter a minha rabugem e talvez a análise saia mais benevolente que o necessário.
A seleção venceu o torneio invicta, com uma média de vantagem de 32 pontos sobre os adversários. Ainda assim, esteve irregular; é verdade. Mal esse que se estendeu sob os adversários e que traduz bem a pobreza do continente no universo do basquete feminino (- vale recordar a posição dos “vizinhos” no último Mundial: Argentina – nono, Cuba- décimo e Canadá – décimo primeiro). A Copa reforça a decadência de Cuba: já ausente das últimas duas Olimpíadas e agora também fora do Mundial. Confirma a ascensão da Argentina, novamente beliscando um espaço no cenário internacional às custas de uma irritante e quase insana dedicação defensiva.
A Copa passou e o momento é o de olhar para a frente, antes que o tempo passe e nos vejamos tentando driblar o improviso às vésperas do próximo Mundial.
Em relação à Hortência, tão criticada, acho que a Copa encerra seu período de “observações”. E é a partir de agora que esperamos as ações. De qualquer maneira, é fundamental lembrar que Hortência vem do marketing, e suas ações iniciais tem sido atreladas mais a esse item do que à gestão propriamente dita. Ainda assim tem conseguido resgatar a auto-estima das nossas meninas, o que não é pouco.
Da comissão técnica, acredito que Paulo Bassul conseguiu por em prática o que pretendia teimosamente desde o início. O time funcionou bem, sem estrelismos. Foi possível um revezamento interessante, com jogadoras do banco convertendo-se em destaques mesmo nos jogos menos fáceis. Soube ainda lidar bem com as contusões de Micaela e Mamá. Do ponto de vista da defesa, grande obsessão do treinador, a seleção mostrou que sabe defender (bem), quando quer. Mas às vezes, ela não quer. No ataque, residem os maiores problemas da seleção. Há uma queda natural e evidente da pontaria, que é agravada por uma repetição extremamente monótona das jogadas. Alguém apontou na caixinha de comentários com propriedade que Bassul trabalha com dois auxiliares que lhe foram “impostos”. E talvez faça mesmo falta à comissão alguém que trabalhe essa deficiência do técnico e da equipe.
Não sei se Bassul será mantido no cargo. Sinceramente esperava mais dele no comando na seleção. E acho que até ele mesmo esperava mais de si. Bassul imaginava que apesar das aposentadorias ele seria capaz de manter o Brasil em alta no mundo do basquete. Mas as primeiras experiências têm mostrado que não e o técnico está tentando se adaptar desde que chegou ao cargo. Caso Bassul saia, a pergunta que não cala é: “Quem?”. Quem poderia assumir no momento a seleção brasileira? Eu realmente não sei, não vejo nenhum real candidato ao cargo e acho justo que ele tenha o direito ao menos de encerrar o ciclo iniciado em 2007.
Ainda no terrreno da comissão técnica, há Janeth, outra duramente criticada. Acho a maior parte das críticas dirigidas a ela injustas e preconceituosas. Janeth foi genial como jogadora e está se descobrindo como técnica. Vai ser necessário tempo até que ela se desenvolva e faça essa transição. Janeth tem uma excelente visão de jogo, comanda um projeto com bons resultados em Santo André, onde inclusive já realizou clínicas e é bem-intencionada. Os ingredientes são bons. Se vai funcionar, eu não sei. Mas ela, mais do que ninguém, merece a oportunidade.
Para encerrar o capítulo comissão técnica, acho importante que a nova gestão adicione aos avanços já implementados um trabalho psicológico sério. É nítido o reflexo da ansiedade das atletas em alguns momentos do jogo e é preciso ter mais força emocional para estar entre os grandes.
Em relação às jogadoras, gostaria de fazer as seguintes observações.
Helen – Jogou com extrema dedicação e ainda é (muito) útil. Mesmo nos dias em que não está tão inspirada (como na decisão), sua presença em quadra traz tranqüilidade ao grupo e organização.
Adrianinha – outra grande armadora, extremamente capaz e difícil de intimidar. Ainda em grande forma, mas apresentando alguma dificuldade em conter a velocidade das armadoras adversárias.
Natália – respondeu bem às oportunidades que teve. O maior problema que vejo na armadora caçula é que foi moldada por um técnico que privilegia a velocidade e o ataque (Ferreto). Em função disso, tem uma dificuldade natural em ser comandada por técnicos que desenvolvem um trabalho tático mais elaborado, seja no clube (Branca) ou na seleção (Bassul). Em alguns momentos em quadra e durante os diálogos com Bassul, é evidente a dificuldade da jogadora em ler o jogo. E certamente esse é um déficit a ser trabalhado.
Micaela – novamente a jogadora apresentou problemas físicos durante a competição, o que infelizmente não é novidade em se tratando da talentosa Micaela. No entanto, a fase da jogadora não é boa em clubes ou na seleção. Talvez Kaé tenha sido a que mais se abateu com o resultado em Pequim. Defendo que a convocação de uma atleta seja em função do que ela apresenta e não em função do seu histórico. E é por isso que acredito que seja o momento de Micaela ser afastada. Se voltar a apresentar um bom e confiante basquete, que volte. Por enquanto, no entanto, acho mais sensato que se comece a trabalhar com um novo nome.
Fernanda – na minha opinião, foi das surpresas mais agradáveis do grupo. Assumiu a posição de titular mostrando qualidades até então ocultas, principalmente na defesa. Colaborou muito em aspectos que os números nem sempre retratam. E no ataque, conseguiu se virar mesmo com uma limitada capacidade de drible, convertendo-se na jogadora brasileira mais levada à linha do lance-livre, onde teve 75% de aproveitamento.
Karen – também teve uma grande participação. Defendeu com precisão e atacou com competência. Faltou um pouco mais de pontaria nos arremessos de longa distância e de ajuda à transição.
Sílvia – marcada pela atuação na decisão, o saldo é extremamente positivo para uma jogadora que parecia ter perdido o fio da meada em certo ponto da carreira. A Copa marca o resgate da atleta, que mostrou condições de atuar nas posições 3 e 4. Interessante notar, que assim como com outras irmãs em quadra, há uma sintonia fiel entre as Gustavos e um aumento na produção quando ambas dividem tempo em jogo.
Palmira – a atuação na Copa repete o mau desempenho do Pan-2007 e sinaliza que realmente não há qualquer justificativa para insitir. Dessa vez, a ala jogou na sua posição habitual, chegou a ser titular (!) nos amistosos e não conseguiu mostrar nada. Seu jogo se limita aos frenéticos arremessos de três e seus passes são ruins e desprovidos do mínimo de criatividade.
Alessandra – em resumo: a mulher é um colosso. Vou usar o espaço para registrar a chatice dos comentários de Roby Porto e Byra Bello sobre os lances-livres da pivô. Afe!
Mamá – não acho que a pivô tenha feito um mau papel na Copa. Muito pelo contrário. Mamá tem qualidades: é inteligente, disciplinada e está em boa forma. Mas é preciso olhar para a frente e preparar uma sucessora. E há boas candidatas para a vaga.
Franciele – mais jovem dos grupo, Franciele voltou a mostrar do que é capaz quando bem treinada. Chegou à Copa em uma forma física impressionante, com uma impulsão fenomenal. Além disso, teve evoluções nítidas no entrosamento com o grupo e na leitura do jogo. É torcer para que a curva da menina siga ascendente, apesar de o cenário (II Divisão Espanhola) ser desfavorável.
Kelly – eu não acredito que vou falar isso mais uma vez, mas é inevitável. A pivô está nitidamente acima do peso. E não é de hoje. A primeira questão é que Kelly chegou a ser cortada por Bassul para o Pré-Olímpico, em 2007. Era a primeira competição do treinador com a seleção adulta e talvez a intenção fosse marcar que era preciso estar bem (fisicamente, inclusive) para estar na seleção sob o seu comando. Pois não foi o que aconteceu. Sem opções, o treinador voltou a recorrer à Kelly mesmo fora de forma. E é triste ver uma jogadora do nível de Kelly “jogando bem, apesar de fora de forma”. Ela merecia mais. Mas não foi o que aconteceu na Copa: Kelly esteve mal e pagou o mico de não entrar um minuto em quadra na partida da decisão. O pior é que parece que nem Kelly nem Bassul têm aprendido com os episódios. Nem ela emagrece, nem ele a corta. Coloco-a na mesma situação de Micaela: sem seleção até sair da zona de acomodação.