Italiano mais atraente que a WNBA?
Monique Vieira
Às vésperas da Olimpíada de Sydney-2000 e do Mundial da China-2002, a maioria das jogadoras da Seleção Brasileira do técnico Antonio Carlos Barbosa estava militando na WNBA, que chegou a ter um recorde de nove brazucas atuando na liga profissional americana. Durante quatro anos a CBB se lamuriou de não poder cobrir os salários em dólar e a Seleção só conseguiu treinar com time completo na semana da estréia das competições. Com a garra de Janeth e Alessandra, que foi injustamente esnobada em sua passagem pelos Estados Unidos, o time verde-amarelo conseguiu superar a preparação defeituosa e graças a vitórias surpreendentes sobre Rússia e Coréia do Sul trouxe a medalha de bronze de Sydney. Mas no Mundial da China, as principais jogadoras brasileiras voltaram a se apresentar em cima da hora, praticamente se encontrando no aeroporto na hora do embarque, e o resultado foi uma triste sétima posição.
Desde então a CBB passou a olhar mais torto para a WNBA e com o patrocínio da Eletrobrás conseguiu repatriar as atletas da Seleção para um período de treinamentos decente antes dos Jogos de Atenas-2004, em que o Brasil não tinha mesmo o potencial técnico para terminar além do quarto lugar, Estados Unidos, Austrália e Rússia estão em um degrau acima. Neste ano de ressaca olímpica, eu esperava que as brazucas voltassem em massa para a liga americana. Mas não é isso que está acontecendo. A nova Meca do nosso basquete é a Itália, felizmente com sucesso. Claro que a torcida preferia ver as jogadoras atuando no Brasil para não deixar a popularidade do basquete feminino morrer com esse Nacional esvaziado com sete times mais o vexame da desistência do Iate Clube Rio das Ostras no meio do torneio, ou nesse Paulista de um time só, o sobrevivente Ourinhos. Mas agora a desculpa é que não dá para competir com o euro, o dólar anda desvalorizado mesmo...
Vendo por um lado positivo, acho até melhor termos oito das 13 atletas olímpicas brasileiras (incluindo Micaela que só não foi a Atenas por causa de uma lesão, senão ocuparia a vaga de Silvinha Gustavo) jogando e bem nas Ligas da Espanha e da Itália. O melancólico é ter de acompanhar pela internet e não ao vivo os feitos das brasileiras, dá saudades dos tempos em que os duelos entre os times de Magic Paula e Hortência Hall da Fama lotavam ginásios por aqui. Mas se for para ter as atletas de ponta em solo nacional jogando contra juvenis ou formando só dois times competitivos em cidades do interior paulista, é mais válido ganhar experiência internacional enfrentando americanas, russas, espanholas, australianas e italianas. Melhor ainda é vencê-las como nos áureos tempos. E não precisamos ir muito longe para a fase áurea do Brasil com o título mundial de 94 e a prata na Olimpíada de Atenas-96. Podemos ficar neste século 21 mesmo.
A Liga Italiana é encarada como uma boa pré-temporada por várias atletas americanas, assim como a Liga Russa. O campeonato da gelada Rússia é mais forte, contando com o Samara campeão europeu e o Dynamo Moscou da armadora campeã olímpica e da WNBA Sue Bird, logo é muito válido comemorar a medalha de bronze da ala maranhense Iziane como segunda cestinha pelo Ekaterimburg atrás apenas da veterana pivô americana Yolanda Griffith, reserva na campanha do ouro do verdadeiro Dream Team em Atenas. Mas a Itália tem um ambiente mais aprazível para as brazucas e assim como a Espanha tem figurinhas carimbadas que já passaram pelo Brasil para jogar o Nacional feminino em sua época menos opaca.
Qual o torcedor do Paraná que não se lembra com carinho da americana Vicky Bullett e da croata Vedrana Grgin? Quando tinha time adulto, o Osasco/BCN vibrava com a russa Elena Tornikidou (MVP da Liga Espanhola pelo Hondarribia da maior técnica brasileira, Maria Helena Cardoso), a dona do garrafão do Santo André era a espanhola Marina Ferragut, a armadora croata Korie Hlede encantou em Guarulhos. E isso não faz mais de quatro anos. Mais recentemente a torcida de Americana teve o prazer de admirar o jogo da espanhola Amaya Valdemoro em duelos memoráveis com Janeth, do Ourinhos. Não estou valorizando quem vem de fora, estou prestando tributo a adversárias que fizeram as brasileiras evoluírem, principalmente na defesa.
O melhor é que mesmo na Itália as brasileiras conseguem ganhar delas. A ala-pivô Cíntia Tuiú faz uma temporada muito consistente pelo Famila Schio, já ganhou a Copa da Itália e chegou com moral na final da Bota, marcando 23 pontos e nove rebotes na vitória por 75 a 64 que despachou o Meverin Parma por 2 a 0 na série semifinal. Melhor ainda fez o Penta Faenza da armadora Adrianinha, que eliminou o atual campeão Pool Comense de Micaela e depois surpreendeu o líder Phard Napoli de Vicky Bullett fechando a semi em 2 a 0. A “formiguinha atômica” do basquete francano também foi cestinha de seu time com 21 pontos, quatro rebotes, três assistências e três roubos de bola na vitória por 67 a 58. A pivô brazuca Graziane também mostrou eficiência pelo Faenza, anotando 14 pontos e 13 rebotes.
Mais madura, Adrianinha dá uma opção importante para Barbosa, já que a veterana Helen Luz, titular da Seleção, não joga como armadora nata, seu maior valor é na posição 2 para fazer os arremessos de três que ajudaram o Barcelona a chegar à final da Liga Espanhola contra o Ros Casares Valencia da estrela Valdemoro. Com Érika Souza dominando o garrafão do Barça, Cíntia Tuiú está tendo de mostrar serviço na Itália para não perder seu posto de titular da Seleção para o Mundial de 2006, embora eu pense que seja hora de uma renovação de pivôs. Espero que entre uma clínica e outra e o expediente como Secretário de Esportes de Bauru, o técnico Barbosa esteja acompanhando atentamente o desempenho das atletas e conversando com elas. Afinal, se o presidente da CBB diz que ele tem 10 meses por ano de dedicação exclusiva à Seleção, deve haver tempo de sobra para isso. Afinal é justo a torcida brasileira pedir uma medalha no Mundial para aquecer a modalidade jogando em casa.
E a WNBA? É melhor voltar para lá? Se for para jogar como titular como faz Janeth no Houston Comets, é claro que vale. Mas Adrianinha, Cíntia, Helen, Kelly e Érika souberam o que sofrer para conseguir minutos nos times americanos, é triste ficar comendo cheeseburger e amargando a reserva atuando menos de 15 minutos por jogo. Por isso elas preferem um bom spaghetti ou uma boa paella como titulares de seus times na Itália e na Espanha, países culturalmente mais interessantes que os EUA. Se bem que a temporada oficial da WNBA só começa dia 21 de maio, Janeth e Iziane já estão disputando amistosos de pré-temporada e não seria ruim que pelo menos duas brasileiras chegassem para o maior campeonato do mundo. Infelizmente, uma entorse no joelho afastou a pivô Kelly do Cari Chieti, que luta contra o rebaixamento no Italiano, e a lesão frustrou seus planos de defender o Phoenix Mercury este ano.
No entanto, as conquistas no Velho Continente têm de ser valorizadas. Se Cíntia ou Adrianinha foram cestinhas do time campeão italiano, podem incluir o troféu no currículo assim como Janeth fez como coadjuvante no tetracampeonato do Houston Comets na WNBA. Afinal o basquete está muito globalizado, a diferença técnica do resto do mundo para os americanos está diminuindo (mais rapidamente no masculino que no feminino) e vale lembrar que a melhor jogadora em atividade nos EUA é uma australiana, a ala-pivô Lauren Jackson, companheira de Iziane no Seattle Storm em busca do bi da WNBA. Nós fãs só esperamos que essa falta sentida das melhores jogadoras brasileiras seja compensada com resultados, a começar pela Copa América de setembro.
Monique Vieira
Às vésperas da Olimpíada de Sydney-2000 e do Mundial da China-2002, a maioria das jogadoras da Seleção Brasileira do técnico Antonio Carlos Barbosa estava militando na WNBA, que chegou a ter um recorde de nove brazucas atuando na liga profissional americana. Durante quatro anos a CBB se lamuriou de não poder cobrir os salários em dólar e a Seleção só conseguiu treinar com time completo na semana da estréia das competições. Com a garra de Janeth e Alessandra, que foi injustamente esnobada em sua passagem pelos Estados Unidos, o time verde-amarelo conseguiu superar a preparação defeituosa e graças a vitórias surpreendentes sobre Rússia e Coréia do Sul trouxe a medalha de bronze de Sydney. Mas no Mundial da China, as principais jogadoras brasileiras voltaram a se apresentar em cima da hora, praticamente se encontrando no aeroporto na hora do embarque, e o resultado foi uma triste sétima posição.
Desde então a CBB passou a olhar mais torto para a WNBA e com o patrocínio da Eletrobrás conseguiu repatriar as atletas da Seleção para um período de treinamentos decente antes dos Jogos de Atenas-2004, em que o Brasil não tinha mesmo o potencial técnico para terminar além do quarto lugar, Estados Unidos, Austrália e Rússia estão em um degrau acima. Neste ano de ressaca olímpica, eu esperava que as brazucas voltassem em massa para a liga americana. Mas não é isso que está acontecendo. A nova Meca do nosso basquete é a Itália, felizmente com sucesso. Claro que a torcida preferia ver as jogadoras atuando no Brasil para não deixar a popularidade do basquete feminino morrer com esse Nacional esvaziado com sete times mais o vexame da desistência do Iate Clube Rio das Ostras no meio do torneio, ou nesse Paulista de um time só, o sobrevivente Ourinhos. Mas agora a desculpa é que não dá para competir com o euro, o dólar anda desvalorizado mesmo...
Vendo por um lado positivo, acho até melhor termos oito das 13 atletas olímpicas brasileiras (incluindo Micaela que só não foi a Atenas por causa de uma lesão, senão ocuparia a vaga de Silvinha Gustavo) jogando e bem nas Ligas da Espanha e da Itália. O melancólico é ter de acompanhar pela internet e não ao vivo os feitos das brasileiras, dá saudades dos tempos em que os duelos entre os times de Magic Paula e Hortência Hall da Fama lotavam ginásios por aqui. Mas se for para ter as atletas de ponta em solo nacional jogando contra juvenis ou formando só dois times competitivos em cidades do interior paulista, é mais válido ganhar experiência internacional enfrentando americanas, russas, espanholas, australianas e italianas. Melhor ainda é vencê-las como nos áureos tempos. E não precisamos ir muito longe para a fase áurea do Brasil com o título mundial de 94 e a prata na Olimpíada de Atenas-96. Podemos ficar neste século 21 mesmo.
A Liga Italiana é encarada como uma boa pré-temporada por várias atletas americanas, assim como a Liga Russa. O campeonato da gelada Rússia é mais forte, contando com o Samara campeão europeu e o Dynamo Moscou da armadora campeã olímpica e da WNBA Sue Bird, logo é muito válido comemorar a medalha de bronze da ala maranhense Iziane como segunda cestinha pelo Ekaterimburg atrás apenas da veterana pivô americana Yolanda Griffith, reserva na campanha do ouro do verdadeiro Dream Team em Atenas. Mas a Itália tem um ambiente mais aprazível para as brazucas e assim como a Espanha tem figurinhas carimbadas que já passaram pelo Brasil para jogar o Nacional feminino em sua época menos opaca.
Qual o torcedor do Paraná que não se lembra com carinho da americana Vicky Bullett e da croata Vedrana Grgin? Quando tinha time adulto, o Osasco/BCN vibrava com a russa Elena Tornikidou (MVP da Liga Espanhola pelo Hondarribia da maior técnica brasileira, Maria Helena Cardoso), a dona do garrafão do Santo André era a espanhola Marina Ferragut, a armadora croata Korie Hlede encantou em Guarulhos. E isso não faz mais de quatro anos. Mais recentemente a torcida de Americana teve o prazer de admirar o jogo da espanhola Amaya Valdemoro em duelos memoráveis com Janeth, do Ourinhos. Não estou valorizando quem vem de fora, estou prestando tributo a adversárias que fizeram as brasileiras evoluírem, principalmente na defesa.
O melhor é que mesmo na Itália as brasileiras conseguem ganhar delas. A ala-pivô Cíntia Tuiú faz uma temporada muito consistente pelo Famila Schio, já ganhou a Copa da Itália e chegou com moral na final da Bota, marcando 23 pontos e nove rebotes na vitória por 75 a 64 que despachou o Meverin Parma por 2 a 0 na série semifinal. Melhor ainda fez o Penta Faenza da armadora Adrianinha, que eliminou o atual campeão Pool Comense de Micaela e depois surpreendeu o líder Phard Napoli de Vicky Bullett fechando a semi em 2 a 0. A “formiguinha atômica” do basquete francano também foi cestinha de seu time com 21 pontos, quatro rebotes, três assistências e três roubos de bola na vitória por 67 a 58. A pivô brazuca Graziane também mostrou eficiência pelo Faenza, anotando 14 pontos e 13 rebotes.
Mais madura, Adrianinha dá uma opção importante para Barbosa, já que a veterana Helen Luz, titular da Seleção, não joga como armadora nata, seu maior valor é na posição 2 para fazer os arremessos de três que ajudaram o Barcelona a chegar à final da Liga Espanhola contra o Ros Casares Valencia da estrela Valdemoro. Com Érika Souza dominando o garrafão do Barça, Cíntia Tuiú está tendo de mostrar serviço na Itália para não perder seu posto de titular da Seleção para o Mundial de 2006, embora eu pense que seja hora de uma renovação de pivôs. Espero que entre uma clínica e outra e o expediente como Secretário de Esportes de Bauru, o técnico Barbosa esteja acompanhando atentamente o desempenho das atletas e conversando com elas. Afinal, se o presidente da CBB diz que ele tem 10 meses por ano de dedicação exclusiva à Seleção, deve haver tempo de sobra para isso. Afinal é justo a torcida brasileira pedir uma medalha no Mundial para aquecer a modalidade jogando em casa.
E a WNBA? É melhor voltar para lá? Se for para jogar como titular como faz Janeth no Houston Comets, é claro que vale. Mas Adrianinha, Cíntia, Helen, Kelly e Érika souberam o que sofrer para conseguir minutos nos times americanos, é triste ficar comendo cheeseburger e amargando a reserva atuando menos de 15 minutos por jogo. Por isso elas preferem um bom spaghetti ou uma boa paella como titulares de seus times na Itália e na Espanha, países culturalmente mais interessantes que os EUA. Se bem que a temporada oficial da WNBA só começa dia 21 de maio, Janeth e Iziane já estão disputando amistosos de pré-temporada e não seria ruim que pelo menos duas brasileiras chegassem para o maior campeonato do mundo. Infelizmente, uma entorse no joelho afastou a pivô Kelly do Cari Chieti, que luta contra o rebaixamento no Italiano, e a lesão frustrou seus planos de defender o Phoenix Mercury este ano.
No entanto, as conquistas no Velho Continente têm de ser valorizadas. Se Cíntia ou Adrianinha foram cestinhas do time campeão italiano, podem incluir o troféu no currículo assim como Janeth fez como coadjuvante no tetracampeonato do Houston Comets na WNBA. Afinal o basquete está muito globalizado, a diferença técnica do resto do mundo para os americanos está diminuindo (mais rapidamente no masculino que no feminino) e vale lembrar que a melhor jogadora em atividade nos EUA é uma australiana, a ala-pivô Lauren Jackson, companheira de Iziane no Seattle Storm em busca do bi da WNBA. Nós fãs só esperamos que essa falta sentida das melhores jogadoras brasileiras seja compensada com resultados, a começar pela Copa América de setembro.
Fonte: Basket Brasil
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