Choque de realidade
Por Fábio Zambeli
Coluna do Site Rebote
Ao concluir em 2009 seu terceiro mandato, conquistado na assembléia do Jockey Club do Rio na última segunda-feira, Gerasime Bozikis, 61 anos, se transformará no segundo mais longo mandatário da Confederação Brasileira de Basquete (CBB).
O ciclo de Grego, aberto em 1997 após um conturbado processo eleitoral, já tem pelo menos 12 anos de duração assegurados.
Caso encerre a missão, a trajetória do dirigente só será superada em extensão à do patrono da CBB, almirante Paulo Martins Meira, que permaneceu no cargo entre 1938 e 1975 – seqüência de 37 anos.
Este ano, Grego superará em tempo de gestão seu antecessor, Renato Brito Cunha (1989-97), e Alberto Cury (1975-83) – ambos detiveram o controle da associação máxima do bola-ao-cesto nacional por oito anos.
O grupo de condutores da instituição é seleto. Desde a sua fundação em 1933, só seis nomes figuram na galeria de presidentes – Carlos de Oliveira Dias (1983-89) e o fundador Gerdal Gonzaga Bôscoli (1934-38) completam a relação.
Quando discursava com o palanque oposicionista, em maio de 97, Grego obteve o apoio de 15 federações – vencendo o rival Brito Cunha, que ratificara à ocasião o respaldo de 11 entidades na assembléia geral realizada em São Luís (MA).
A disputa terminou nos tribunais e a CBB chegou a ser comandada por uma junta provisória. Os votos de quatro federações foram contestados e a batalha judicial se arrastou alguns meses.
O reinado de Grego foi coroado com louvor em 2000. Conduzido por uma manobra que reformulou o estatuto da entidade, antecipara o pleito e abocanhara na virada do século quase a unanimidade. Ainda que não houvesse chapa adversária, o presidente seria reeleito no dia 25 de maio com aval de 25 das 27 cúpulas regionais.
Era o apogeu do poderio político deste nativo de Atenas que chegara ao Brasil na adolescência e assumira o controle da Federação do Rio de Janeiro (onde seria comandante entre 85 e 97) aos 41 anos.
Meia década depois do segundo triunfo nas urnas, a soberania do dirigente dá indícios de esmorecimento.
No referendo de segunda-feira, o presidente alcançou 18 dos 27 votos possíveis.
Se considerados os escrutínios anteriores, o exército de seguidores de Grego mostra-se fragmentado. Apenas sete entidades se mantiveram fiéis à sua candidatura desde o início da escalada virtuosa – as federações do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo, Amapá, Amazonas, Roraima e Mato Grosso estiveram ao lado do cartola em todas as investidas rumo à cadeira do 16º andar do número 245 na Avenida Rio Branco.
A Dinastia Grego já está na história do basquete também pela coleção de insucessos no espectro da bola-laranja internacional, especialmente no cenário continental, onde os brasileiros deixaram de ser soberanos e sucumbiram ante os arquiinimigos argentinos em quase todas as categorias.
Ainda assim, os últimos episódios evidenciam que o advento da reeleição contribui para a perpetuação de longos e pouco produtivos exercícios administrativos nas modalidades olímpicas.
Imperioso dizer que a democracia (termo etimologicamente compatriota do presidente) engatinha na estrutura da CBB.
Imatura institucionalmente, a confederação torna-se vulnerável a ciclos infindáveis - os processos sucessórios não resistem ao apelo de quem assina cheques, delibera, toma decisões. Enfrentar quem tem a caneta nas mãos é tarefa quase quixotesca.
Com opositores desmobilizados, travando acordos de credibilidade duvidosa às vésperas do pleito e longe de oferecer alternativas plausíveis de gestão, sepulta-se qualquer empreitada na tentativa de destronar quem tem sob sua custódia figuras do baixo clero na hierarquia esportiva.
Nomes pouco habituados com cortejos, gentilezas, benesses, que na matemática das urnas, por uma dessas obras da engenharia oligárquica, exibem vigor e desenvoltura invejáveis.
O voto de Roraima, por exemplo, equivale ao de São Paulo - estado detentor de 51 das 58 láureas nacionais em competições adultas.
Ainda que veiculados em rede nacional de TV, apelos destemperados como o feito pelo ídolo Oscar Schmidt às vésperas do pleito não encontram eco.
Depois da tempestade - e dos insucessos nas quadras - a bonança. Grego dispõe de matéria-prima para encerrar o terceiro mandato saldando a dívida contraída com o basquete brasileiro com perspectivas até superavitárias.
As seleções canarinho (masculina e feminina) detêm hoje recursos humanos para alçar vôos internacionais que as recoloquem na elite do esporte.
O Mundial Feminino do vindouro ano transborda ingredientes capazes de promover um novo boom na prática da modalidade, com repercussão favorável de público, mídia, publicidade e aporte financeiro.
Há tempo ainda para retirar do penhor a sede da entidade, mácula herdada que acabou por afetar a idoneidade do atual exercício.
Dada a responsabilidade do mandato que ora se inicia, Grego emite sinais vacilantes. Seu primeiro pronunciamento pós-sufrágio trouxe mais incertezas.
O presidente (re)reeleito estimula a discórdia entre clubes e atletas que se movimentam para dar vitamina às competições nacionais.
Diz-se indiferente à manutenção de técnicos de selecionados adultos sem dedicação integral às respectivas funções.
Mostra-se equivocadamente seguro quanto à participação dos astros da NBA nos torneios oficiais.
Cultua o centralismo e trata questões de interesse público (como o alardeado calendário de atividades até 2012) intramuros, sem dar a necessária transparência aos atos de planejamento.
Reproduzo aqui uma profética assertiva de Gerasime Bozikis no crepúsculo de 2000, ainda inebriado pelo triunfo eleitoral e o bronze de Sydney (ah, Alessandra e as russas...).
“O basquete brasileiro é a quarta potência do mundo no século 20. Estamos à frente de grandes potências que estão longe de nos alcançar. E, com certeza, vamos incomodar a Iugoslávia em busca da terceira colocação.”
O contorno que a cena basquetebolística tomou no país fora muito diverso da prognose do presidente.
O Brasil já é a sexta força global, revela a Fiba. Se computadas apenas as performances masculinas, padecemos com um incômodo 15º posto no ranking mundial.
Para que a profecia de fim de século vaticinada pelo dirigente-mor deixe o plano mitológico (com o perdão do trocadilho ateniense), muito se precisa fazer. O primeiro passo é reconhecer o quão aflitiva é a realidade.
:::::::
Zona Morta
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))) Prova de fogo para a Nossa Liga. Com o desdém da CBB, será possível detectar quem tem cacife para desafiar o poder. Ribeirão e Ourinhos pularam fora antes mesmo da formatação da entidade. Quem será o próximo desertor?
Por Fábio Zambeli
Coluna do Site Rebote
Ao concluir em 2009 seu terceiro mandato, conquistado na assembléia do Jockey Club do Rio na última segunda-feira, Gerasime Bozikis, 61 anos, se transformará no segundo mais longo mandatário da Confederação Brasileira de Basquete (CBB).
O ciclo de Grego, aberto em 1997 após um conturbado processo eleitoral, já tem pelo menos 12 anos de duração assegurados.
Caso encerre a missão, a trajetória do dirigente só será superada em extensão à do patrono da CBB, almirante Paulo Martins Meira, que permaneceu no cargo entre 1938 e 1975 – seqüência de 37 anos.
Este ano, Grego superará em tempo de gestão seu antecessor, Renato Brito Cunha (1989-97), e Alberto Cury (1975-83) – ambos detiveram o controle da associação máxima do bola-ao-cesto nacional por oito anos.
O grupo de condutores da instituição é seleto. Desde a sua fundação em 1933, só seis nomes figuram na galeria de presidentes – Carlos de Oliveira Dias (1983-89) e o fundador Gerdal Gonzaga Bôscoli (1934-38) completam a relação.
Quando discursava com o palanque oposicionista, em maio de 97, Grego obteve o apoio de 15 federações – vencendo o rival Brito Cunha, que ratificara à ocasião o respaldo de 11 entidades na assembléia geral realizada em São Luís (MA).
A disputa terminou nos tribunais e a CBB chegou a ser comandada por uma junta provisória. Os votos de quatro federações foram contestados e a batalha judicial se arrastou alguns meses.
O reinado de Grego foi coroado com louvor em 2000. Conduzido por uma manobra que reformulou o estatuto da entidade, antecipara o pleito e abocanhara na virada do século quase a unanimidade. Ainda que não houvesse chapa adversária, o presidente seria reeleito no dia 25 de maio com aval de 25 das 27 cúpulas regionais.
Era o apogeu do poderio político deste nativo de Atenas que chegara ao Brasil na adolescência e assumira o controle da Federação do Rio de Janeiro (onde seria comandante entre 85 e 97) aos 41 anos.
Meia década depois do segundo triunfo nas urnas, a soberania do dirigente dá indícios de esmorecimento.
No referendo de segunda-feira, o presidente alcançou 18 dos 27 votos possíveis.
Se considerados os escrutínios anteriores, o exército de seguidores de Grego mostra-se fragmentado. Apenas sete entidades se mantiveram fiéis à sua candidatura desde o início da escalada virtuosa – as federações do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo, Amapá, Amazonas, Roraima e Mato Grosso estiveram ao lado do cartola em todas as investidas rumo à cadeira do 16º andar do número 245 na Avenida Rio Branco.
A Dinastia Grego já está na história do basquete também pela coleção de insucessos no espectro da bola-laranja internacional, especialmente no cenário continental, onde os brasileiros deixaram de ser soberanos e sucumbiram ante os arquiinimigos argentinos em quase todas as categorias.
Ainda assim, os últimos episódios evidenciam que o advento da reeleição contribui para a perpetuação de longos e pouco produtivos exercícios administrativos nas modalidades olímpicas.
Imperioso dizer que a democracia (termo etimologicamente compatriota do presidente) engatinha na estrutura da CBB.
Imatura institucionalmente, a confederação torna-se vulnerável a ciclos infindáveis - os processos sucessórios não resistem ao apelo de quem assina cheques, delibera, toma decisões. Enfrentar quem tem a caneta nas mãos é tarefa quase quixotesca.
Com opositores desmobilizados, travando acordos de credibilidade duvidosa às vésperas do pleito e longe de oferecer alternativas plausíveis de gestão, sepulta-se qualquer empreitada na tentativa de destronar quem tem sob sua custódia figuras do baixo clero na hierarquia esportiva.
Nomes pouco habituados com cortejos, gentilezas, benesses, que na matemática das urnas, por uma dessas obras da engenharia oligárquica, exibem vigor e desenvoltura invejáveis.
O voto de Roraima, por exemplo, equivale ao de São Paulo - estado detentor de 51 das 58 láureas nacionais em competições adultas.
Ainda que veiculados em rede nacional de TV, apelos destemperados como o feito pelo ídolo Oscar Schmidt às vésperas do pleito não encontram eco.
Depois da tempestade - e dos insucessos nas quadras - a bonança. Grego dispõe de matéria-prima para encerrar o terceiro mandato saldando a dívida contraída com o basquete brasileiro com perspectivas até superavitárias.
As seleções canarinho (masculina e feminina) detêm hoje recursos humanos para alçar vôos internacionais que as recoloquem na elite do esporte.
O Mundial Feminino do vindouro ano transborda ingredientes capazes de promover um novo boom na prática da modalidade, com repercussão favorável de público, mídia, publicidade e aporte financeiro.
Há tempo ainda para retirar do penhor a sede da entidade, mácula herdada que acabou por afetar a idoneidade do atual exercício.
Dada a responsabilidade do mandato que ora se inicia, Grego emite sinais vacilantes. Seu primeiro pronunciamento pós-sufrágio trouxe mais incertezas.
O presidente (re)reeleito estimula a discórdia entre clubes e atletas que se movimentam para dar vitamina às competições nacionais.
Diz-se indiferente à manutenção de técnicos de selecionados adultos sem dedicação integral às respectivas funções.
Mostra-se equivocadamente seguro quanto à participação dos astros da NBA nos torneios oficiais.
Cultua o centralismo e trata questões de interesse público (como o alardeado calendário de atividades até 2012) intramuros, sem dar a necessária transparência aos atos de planejamento.
Reproduzo aqui uma profética assertiva de Gerasime Bozikis no crepúsculo de 2000, ainda inebriado pelo triunfo eleitoral e o bronze de Sydney (ah, Alessandra e as russas...).
“O basquete brasileiro é a quarta potência do mundo no século 20. Estamos à frente de grandes potências que estão longe de nos alcançar. E, com certeza, vamos incomodar a Iugoslávia em busca da terceira colocação.”
O contorno que a cena basquetebolística tomou no país fora muito diverso da prognose do presidente.
O Brasil já é a sexta força global, revela a Fiba. Se computadas apenas as performances masculinas, padecemos com um incômodo 15º posto no ranking mundial.
Para que a profecia de fim de século vaticinada pelo dirigente-mor deixe o plano mitológico (com o perdão do trocadilho ateniense), muito se precisa fazer. O primeiro passo é reconhecer o quão aflitiva é a realidade.
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Zona Morta
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))) Prova de fogo para a Nossa Liga. Com o desdém da CBB, será possível detectar quem tem cacife para desafiar o poder. Ribeirão e Ourinhos pularam fora antes mesmo da formatação da entidade. Quem será o próximo desertor?
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