quinta-feira, 11 de novembro de 2004

Domínios das gigantes

Renato Pena


O Nacional de Basquete Feminino deve fechar o turno da fase classificatório no fim de semana, sob domínios das pivôs, o que não acontece desde a era da one-woman-show Karina, no final dos anos 90. Como conseqüência da debandada das principais alas brasileiras, para carreira no exterior, técnicos passam a investir mais na defesa.

As estatísticas ajudam a entender o que as comissões técnicas estão comprovando. Do ranking das jogadoras das seis edições do Nacional, apenas Marta Sobral figura entre as cinco melhores, fora da posição de ala/armadora. O quadro da Confederação Brasileira de Basquete (CBB) leva em conta apenas a pontuação das atletas, o que favorece as alas Janeth, Silvinha, Helen e Micaela, respectivamente, as quatro melhores jogadores, desde 1998, quando a liga de clubes começou a ser realizada, nos moldes de hoje. Mas não foi sempre assim.

Karina. No final dos anos 90, uma pivô com cerca de 100 quilos e 1,85 m de altura dominava não só os garrafões, mas ofuscava as estrelas brasileiras que arremessavam de meia e longa distância. Karina, hoje com 32 anos, chegou ao posto de cestinha do Nacional, sendo única em sua posição a conseguir tal feito, desbancando até mesmo a ala Janeth Arcain, em 1999.

A atual pivô do Sírio anotou 26,8 pontos por partida, naquele ano, enquanto a ala que também continua em atividade, teve 25,4 pontos médios. A argentina naturalizada brasileira não chegou a ser campeã, na nova formatação da liga brasileira e sempre carregou suas equipes nas costas. Em 2000, jogando em Campinas, Karina pontuou ainda mais (28,3 de média), em outro duelo com Janeth (29,9). Ela atuou ainda em 2001, com 22,6 pontos por jogo e o terceiro melhor resultado daquele Nacional. No ano seguinte, a atleta deixaria as quadras para se arriscar na política.

Queda. Enquanto isso, volta o domínio total das alas cestinhas. Nos dois últimos brasileiros sem Karina, somente Érika, na temporada 2002/2003, jogando por Guarulhos (SP), e Leila, em 2003/2004, por Santo André (SP), figuraram entre as cinco melhores cestinhas, sem ser ala ou armadora. Ainda assim, essas duas reboteiras só atingiram a quarta colocação como pontuadoras.

A posição da pivô foge aos holofotes, no basquete feminino, com a exceção de Karina e de Marta Sobral, que estão de volta. A primeira está confirmada para a partida de amanhã, entre Sírio e São Paulo/Guaru, às 18h, com Sportv. A segunda estreou no fim de semana, com 15 pontos e 6 rebotes para o Rio das Ostras (RJ), contra Santo André. Jogou 24 minutos, aos 40 anos (a maior idade da liga).

2004. O atual Nacional ainda tem uma cestinha dos garrafões, Kátia, de Santo André (20 pontos de média), e sua melhor jogadora é outra pivô. Ega, do Americana, é a reboteira da vez, com 12 bolas recuperadas por jogo, a quinta pontuadora da liga (16,8), resultando na carreira mais eficiente (22,6 pontos, no cálculo de muitos quesitos da CBB).

O retorno de Karina coloca lenha na fogueira sobre o mito da "pivô de força", alcunha indicada às jogadoras altas com peso acima da média do esporte, que ganham bolas no garrafão contando, muitas vezes, apenas com o bloqueio do corpo.

Karina é uma pivô de força, sonho de qualquer técnico no mundo, no auge de sua forma. Paulo Bassul, treinador do Americana, preferido pelos especialistas em basquete feminino para suceder Antônio Carlos Barbosa no comando da Seleção Brasileira, fez proposta pela jogadora, que acabou em Uberaba. A escolha de Karina seguiria na contramão de algumas tendências, que não passam de conjunturas na visão do badalado técnico, um especialista nos fundamentos de defesa.

Australianas. Um exemplo recente vem de fora, na ascensão das pivôs com estilo de alas da seleção australiana. Lauren Jackson, de 1,95 m, foi cestinha do seu país, na semifinal olímpica contra o Brasil, com 26 pontos e 13 rebotes. É a principal atleta daquele país, com certa precisão no arremesso de três pontos. "Sim, parece uma tendência, mas tenho certeza de que eles [os técnicos] só não jogam com pivôs de força porque eles não as têm", pontua Bassul, que estava em Atenas, parte da delegação brasileira. "Cada técnico acaba se adaptando às suas jogadoras, tentando explorar o máximo suas características", contemporiza.

Ega, a principal atleta do Nacional hoje, segue o biótipo de Jackson, a australiana de 90 quilos. A jogadora do Americana (76 Kg) arrisca nos arremessos de fora e parte para as infiltrações, como se fosse uma armadora, com a facilidade de uma ala. O bônus, nesse caso, vem com a defesa forte e a fartura nos rebotes. "A mudança de comportamento chega com o tempo. Você vai sentindo o melhor momento do chute. O técnico até te impede de arriscar tanto, mas depois acaba por liberar. O Bassul tem dito que sou uma jogadora 3.5, devido às minhas características", conta a paranaense, citando o sistema de posições numéricas do basquete moderno.

Nesse quadro, a pivô de força atua no setor 5; a segunda defensora dos garrafões, "sem muito corpo" (uma ala/pivô, como Kátia), faz a 4, com a ala na posição 3. As alas/armadoras (2) e armadoras (1) completam o esquema. O 3.5 dito por Bassul resume a evolução da pivô, ou mesmo uma nova posição de quadra, para essas atletas.

Pró-força. A jogadora de força não deve perder terreno, sob o risco do enfraquecimento das defesas. Que o diga a própria Ega: "A Gorda [pivô do Sírio] impediu várias vezes meus cortes [infiltrações]. Era difícil passar por ela. Errei muito por causa disso", diz a atleta, referindo-se ao jogo de terça-feira (09), na vitória de seu time sobre a equipe uberabense, em jogo de quatro double-double.

Ega, Geisa (Americana), Ana Lúcia (Sírio) e Gorda conseguiram, cada uma, mais de 10 pontos e 10 rebotes, sendo as quatro, pivôs.

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