A vitória contra a Argentina, que garantiu ao Brasil a medalha de ouro de forma invicta no Campeonato Sul-Americano Sub-17 feminino, quebrou também um jejum de muitas derrotas frente à seleção vizinha.
Fazendo um retrospecto desde 2001, vamos verificar que o trabalho de base na Argentina tem se consolidado, ao passo que o nosso tem decaído significativamente.
No Sul-Americano Cadete de 2001, comandado pelo técnico Antônio Carlos Barbosa, o Brasil já encontrou muitas dificuldades para vencer as nossas hermanas na final por apenas 1 ponto de diferença: 75x74.
Na Copa América Sub 21, realizada em 2002, a geração de Silvia Gustavo, Graziane Coelho e Fernanda Beling se mostrou mais preparada e soube vencer facilmente as rivais sul-americanas na semifinal do torneio: 75x55. Novamente, Barbosa era o responsável.
No Sul-Americano Juvenil de 2004, a geração de Monah Pegorari, Franciele Nascimento, Jaqueline Silvestre e Izabela Morais também encontrou dificuldades para vencer nossas vizinhas sul-americanas: 75x67, mas ficou com o título. Na ocasião, o técnico era Borracha.

No Sul-Americano Cadete de 2004, sob o comando de Macau, a equipe que tinha nomes como: Danila Fabbri (2.02m) e Michelle Splitter (1.96m) foi responsável pela primeira derrota para as rivais sul americanas na década: 55x44.
Na Copa América Juvenil, em 2004, o Brasil não encontrou a Argentina, mas teve campanha ruim, sob o comando do técnico Borracha e contando com Izabela, Franciele e Joice como seus principais destaques. A quarta colocação tirou o Brasil do Mundial da categoria.
Foi aí que começou-se a perceber que algo estava errado em nosso basquete, ao mesmo tempo que a seleção adulta apresentava um basquete sem harmonia e conjunto nos Jogos Olímpicos de Atenas, terminando na quarta colocação.
No Sul-Americano Cadete do ano seguinte, não encontramos nossas adversárias, pois elas foram surpreendentemente derrotadas na semifinal pelo Paraguai, a quem vencemos na final por míseros quatro pontos: 61x57. Na equipe, nomes como o de Nádia Colhado, Tatiana Balbino e Priscila Cergol, então treinadas por Tarallo.
O fantasma argentino, porém não havia desaparecido e a prova foi uma nova derrota para nossas vizinhas e digamos de passagem, uma lavada: 55x38, na final do Sul-Americano Sub-17. Na equipe, estavam presente Ângela Braghin, Bruna Vallério, Danila e Nádia Colhado. O técnico foi Antônio Carlos Barbosa.
No ano de 2006, tivemos a Copa América Juvenil, onde jogaram Nádia Colhado, Danila e Djane Santos e o Brasil encontrou a Argentina na semifinal do torneio e foi derrotado por 73x69. O técnico era Tarallo.
No mesmo ano, a geração das gigantes Cristiane Simões de Lima (1,93), Thais de Souza Pinto (1,95m) e Fabiana Caetano de Souza, conquistou invicto o Sul-Americano Cadete, porém o grande adversário sul-americano não estava presente no torneio, mas mesmo assim, o Brasil encontrou dificuldades para vencer as equatorianas (bronze no torneio) por apenas 3 pontos: 69x66. Tarallo também era o responsável nessa competição.
O ano de 2007 mostrou-se pavoroso, com a hegemonia no continente saindo de vez de nossas mãos. No Sul-Americano sub-17, sob o comando de Macau, Cris Simões, Fabiana Caetano e Leidilânia Ferreira mostraram um basquete inferior ao esperado e a seleção terminou apenas na terceira colocação: derrota para a Argentina por 68x54, outra derrota surpreendente para as venezuelanas, 72x65, e uma vitória apertada para o Equador por apenas dois pontos: 57x55.

No Sul-Americano cadete, Cris Simões, Leidilânia, Fabiana Caetano e Leila Zabani não conseguiram levar o país ao lugar mais alto do pódio com uma derrota frente às argentinas por 62x57. O treinador foi César Guidetti.
Ano passado, as pivôs Thamara Silva de Freitas e Martha Silva Imoniana fizeram parte do grupo do técnico César Guidetti que foi ao Sul-Americano sub-15 no Paraguai e terminaram com o vice-campeonato, ao perderem para as argentinas duas vezes na competição: 66x54 na fase de classificação e 54x41 na final.
Na Copa Americana Sub-18 do mesmo ano, o Brasil, que tinha no elenco Cris Simões, Mônica Nascimento, Tássia Carcavalli e Tatiana Pacheco, conseguiu superar as hermanas 70x68, sob o comando de Tarallo.
Esse ano os resultados foram desastrosos! No mundial sub 19, com o técnico Tarallo; Cris Simões, Leidilânia, Leila Zabani e companhia tiveram uma derrota vergonhosa diante da Argentina na segunda fase da competição: 70x46! É para esquecer mesmo!
Na copa América sub-16, novamente sob o comando de César Guidetti, Thamara Freitas, Martha Imoniana e Alana Schossler Arias não conseguiram classificar o Brasil para o Mundial sub-17 ao serem derrotadas pelas argentinas na disputa do bronze por 64x47.
A seleção sub 17 foi quem salvou o ano, por enquanto, com a vitória diante de nossas hermanas e esperamos que a seleção sub 15 repita a façanha no campeonato Sul-Americano, que se inicia no fim desse mês. Porém, independente do resultado, o saldo brasileiro desde 2001 diante das argentinas é péssimo: 5 x 9! Precisamos urgentemente rever nosso trabalho de base, pois não podemos deixar que o basquete feminino caia na mesma situação que o masculino que não já disputa três edições de Jogos Olímpicos.
Voltando a falar da seleção sub 17, algo me preocupa: o porte físico de nossas atletas. Com a média de altura de apenas 1,77m, essa equipe encontará dificuldades já na Copa América Sub-18 no ano que vem, onde encontrará seleções de grande porte físico como Cuba, Canadá e os Estados Unidos.
Na minha concepção, os grandes destaques da equipe são a pivô Damiris Amaral dos Santos, de 1.90m e apenas 16 anos, já apontada por muitos como a maior revelação que surgiu em nossas categorias de base nessa década e a ala Jennifer Sirtoli de 1,82m, que terminou como terceira cestinha da seleção com 44 pontos e a segunda melhor reboteira (nona na competição) com 56 rebotes. As alas-armadoras Carina dos Santos Martins e Aruzha Michaski Lima, foram as melhores no quesito assistência no torneio, porém carecem de um melhor porte físico.
Que Hortência e Janeth (agora dirigindo a seleção sub-15), César Guidetti, Norbeto Borracha e Luiz Tarallo possam buscar novos talentos, mas que esses tenham também um porte físico condizente com o nível do basquete mundial atual, pois caso contrário, a situação para o futuro tende a piorar cada vez mais!
Cleverson Guedes é repórter do site Melhor do Vôlei e estreia aqui sua primeira colaboração sobre o basquete feminino, modalidade também alvo de sua atenção.